ARTIGO

Revolução Iluminista

19/08/2014

Nem é preciso lembrar que, por absoluta incompetência do Estado, o PCC nasceu como organização dos presos que se rebelaram para não mais sofrer “esculacho”, violência sexual, humilhação dentro dos presídios, em 2003...

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Revolução Iluminista

 

Publicação autorizada pelo autor em 13.08.2014

 

 

Vinício Carrilho Martinez

 

Professor Adjunto III da Universidade Federal de Rondônia

Marcos Del Roio

Professor Titular de Ciências Políticas da UNESP – FFC

 

 

 

Marcola (Willians Herbas Camacho), líder maior do PCC (crime organizado), adotou o discurso do pensador alemão Karl Marx – criador do pensamento “marxista”[1]. Na verdade, o grito de guerra já entoava cânticos iluministas. O artigo 2º do Estatuto fala em “liberdade, justiça e paz”. Agora, as duas pontas de uma concepção histórica e teleológica se juntaram nesta aparente falta de expectativa capitalista pós-moderna, sobretudo aos miseráveis e aos deserdados na terra brasilis do século XXI.

No meio da luta para escapar da fome, o lumpem-proletariado, descrito por Marx, fez a Revolução Francesa. No entanto, de uma maneira específica, como vemos na descrição de Robert Darnton: “Nada de cavalheirescos discípulos de Locke resignados às regras de algum jogo implícito, mas brutos partidários de Hobbes colhidos em meio à briga pela sobrevivência” (Boemia Literária e Revolução. São Paulo : Companhia das Letras, 1987, p. 31-33). Com a exceção dos advogados, policiais, membros do Judiciário, contabilistas e outros profissionais que servem ao crime organizado, o grosso da tropa é formada de lumpem.

Trata-se de uma categoria social formada por todos os desgarrados do sistema produtivo e que vivem das sobras e dos saques. Do alemão: “'seção degradada e desprezível do proletariado”; lump: “pessoa desprezível”; lumpen: “trapo, farrapo”. Farrapos humanos eram os mendigos e moradores de rua; hoje, de acordo com a hipocrisia do politicamente correto, são os mesmos trapos que denominamos de “moradores de área livre”. Como não acabamos com a miséria humana, mudamos seu nome e título. É mais fácil queimar vivo o mendigo ou o morador de área livre?

 A liberdade é vigiada, a igualdade é (e não é) formal, a fraternidade é mero discurso de padre – os protestantes, neo-pentecostais e cavalheirescos seguidores de Locke nunca acreditaram nisso, até mesmo porque ganhar o pão com o suor do Outro não é muito fraterno. Contudo, o que menos aprendemos é o que mais deveríamos ter apreendido. Os “brutos partidários de Hobbes”, que antes eram servos, serviçais, súditos, hoje foram emancipados como cidadãos. Longe da luta pelo direito, no passado, porque só se conhecia o direito da obediência, no presente, inundados pelo discurso da igualdade, querem ter o mesmo que todos e, pela Jus e pela Lex escrita, devem mesmo ter. São nossos os cidadãos brutos que querem se capitalizar.

Nem é preciso lembrar que, por absoluta incompetência do Estado, o PCC nasceu como organização dos presos que se rebelaram para não mais sofrer “esculacho”, violência sexual, humilhação dentro dos presídios, em 2003. Também não precisamos recordar do acordo institucional feito em 2006, com as lideranças amotinadas, para colocar fim às noites de terror que se seguiam naquele ano.

Os brutos partidários de Hobbes estão mais vivos do que nunca, nada parece lhes intimidar o ímpeto da acumulação capitalista. É disto que se falava na Revolução Iluminista e é disto que não queremos saber. Então, o que esperar dos cavalheiros de Locke que controlam o capital, o Estado e que se negam a ver o óbvio? Aliás, o cântico religioso já clamava pelos “degredados filhos da Terra”. No descontrole social e do capital, os partidários de Hobbes não param de nascer, crescer e querer o que é seu, meu, nosso. O PCC e outros congêneres vão continuar mandando seu recado.

                  

 



[1] http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/07/1486609-dois-chefes-de-faccao-controlam-do-exterior-o-trafico-de-drogas-em-sao-paulo.shtml. 

 




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